Com quantas memórias se faz uma canoa
PREFÁCIO
Tinha eu lá meus seis ou sete anos de pura inocência quando comecei a me envolver, com cuidado e muito carinho, com a Marilia. Muito bonita, belo corte, boa envergadura e bem cuidada por papai Maneco do alívio, como ele era conhecido. Pintada de azul celeste nas bordas e de preto dentro e fora (naquela época usava-se piche puro mesmo), tinha mais ou menos 5 m de comprimento por 60 cm de boca. Era o ganha-pão da família.
Papai acordava cedo. Antes do primeiro cantar do galo, o café já estava no bule de ágata sobre a chapa do fogão a lenha. Ficava quentinho até a hora que mamãe começava a cozinhar o feijão com alguns pedaços de carneseca meio gorda. Pegava o chapéu de palha, um cigarrinho de papel já feito à noite, o samburá de timbopeva pendurado no beiral da casa e saía para a lida da pesca. Pescava aqui mesmo na enseada do Itaguá, quando muito, lá pelos lados da Ponta Grossa. Quando ia chegando o meio-dia, eu já estava na porta do rancho de olho pro lado do cais, espiando se já vinha alguma canoa, pois todos tinham saído. Não demorava muito, eram uma, duas, três e às vezes quatro, quando o tempo estava bom e a pescaria farta. a tio Antonio Pedro, sempre com seu velho "pito” no canto da boca, era o primeiro a chegar. Logo atrás, o Seu Tiburcio, o papai e o Seu Maximiano imbicaram quase juntos na praia. Depois de olhar canoa por canoa pra ver o que tinham pescado naquele dia ensolarado, mas com uma brisa gosto- sa caindo de leste, ia ajudar papai a cuidar da nossa Marília. Tirava o remo, o espinheI de 70 anzóis ainda com algumas iscas, os bagres e corvinas, as embetaras e o roncador. Jogava água na popa e tirava pela proa, com uma cuia de cabaceira, pra lavar. Depois, com pedaço de cobertor já surrado pelo uso, secava e guardava no rancho até a madrugada do dia seguinte, quando meu pai e os companheiros voltavam ao mar para tirar o sustento dos filhos.
Fui crescendo acompanhando tudo isso. Depois papai passou a trabalhar no cerco do Altino Maciel na praia do Saco do Cedro e sempre que podia ele me levava. Muitos anos depois, com a pesca de canoa fracassando, o arrasto do camarão se modernizando (antigamente era capturado com puçá e remo), papai foi trabalhar com carteira assinada na "salgá” de sardinha do próprio Altino Maciel. E pra lá fui também, já com 14 anos. a Seu Maneco do alívio conseguiu se aposentar por idade, depois de muita luta para conseguir o benefício. Faz 12 anos que deixou esse mar, foi pescar em águas mais serenas. Eu ainda estou aqui no ramo, não pescando igual a ele, mas procurando, com meu conhecimento, fazer um pouquinho c em prol desta categoria sofrida, mas honrada, trabalhadora e honesta, pois graças à lida na pesca meu pai conseguiu com que eu me formasse em colégio técnico no Vale do Paraíba.
Hoje, 50 anos depois, lendo essa maravilha de Com quantas memórias se faz uma canoa, tenho a nítida certeza do valor inestimável que cada pescador artesanal nutre pela sua maior ferramenta de trabalho. Depoimentos lúcidos e sentimentos nobres desses heróis do mar que partem para as pescarias com suas pequenas embarcações, e para as viagens de comércio com as grandes canoas de voga, ou que realizam o secular ofício cada vez mais impossível de construir a canoa de "um só pau': Até mesmo desses atletas do remo singrando o mar, para mostrar o valor do homem pescador e a sua liberdade para navegar qual uma bela fragata que passeia suavemente pelo oceano a procura do seu alimento mais saboroso.
Parabenizo os autores pelo valor dessa obra e pela iniciativa de homenagear esses verdadeiros heróis do mar. Leiam este maravilhoso trabalho que guia o nosso pensamento para os tempos de nossos antepassados. Sua harmonia com o mar, a sintonia com os camaradas de pescarias, os conhecimentos sábios das intempéries e a grande preocupação com a perpetuação da cultura caiçara. E isso nos traz à memória, com muito orgulho, alegria e respeito, o grande idealizador deste projeto, o 8Dinho: que assim como eu foi apelidado pelo pai. Ney Martins, companheiro, idealista defensor dos costumes desta terra, o caipira que aos 16 anos veio para cá e se tomou um verdadeiro caiçara. Abraçou esta cidade com toda força de seu coração, respeitou a cultura deste povo, ajudou a mantê-Ia e divulgá-Ia para todo este rincão brasileiro.
Porém, Seu Dito Fernandes, Seu Orlando, Seu Pedro Brandão, Dona Bahia. Lucia, Vitória, Pixoxó, Marinho, meu filho André e querida Tereza, quis o destino que o Criador dele precisasse, deixando aqui a saudade, os amigos e a certeza da tarefa a ele confiada, cumprida com honestidade, competência e amor. Que Nossa Senhora lhe cubra com seu manto sagrado. Meu amigo, meu irmão.
Élvio Damásio Gerente de Pesca e Maricultura de Ubatuba
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