Limpeza de praias afetadas por derrame de petróleo pode favorecer o aumento da abundância de crustáceos
Ao contrário do encontrado em muitos trabalhos, os crustáceos talitrídeos não sofreram drástica redução ou desapareceram das praias da Baía de Paranaguá, após um evento de derramamento de petróleo, e nem foram encontrados recobertos por óleo. O trabalho desenvolvido por pesquisadores do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná relata que a maioria das diferenças encontradas na comunidade está diretamente relacionada às variadas intensidades e frequência do impacto causado pela limpeza dos detritos, e também à proximidade das praias com mangues e estuário.
Limpar ou não a praia após um derramamento de petróleo? As praias estuarinas se comportam diferentemente em relação às oceânicas quando contaminadas por óleo? A primeira é uma questão que permanece em aberto e a segunda é inverstigada pelos autores do trabalho. A limpeza das praias é assunto controverso, pois pode causar remoção do alimento e do abrigo das espécies, influindo negativamente na abundância e diversidade do local, além de retardar o tempo de recolonização do ambiente pelos invertebrados marinhos.
O estudo em questão trata da fauna de seis praias estuarinas na Baia de Paranaguá e foi interrompido após 10 meses de seu início devido ao acidente ocorrido com o navio chileno “Vicuña”, em novembro de 2004. À explosão sucedeu-se o afundamento do navio, ocorrendo o derrame de 291 toneladas de óleo que se espalhou na água e praias da região. Esse acidente propiciou uma avaliação da situação anterior e posterior ao derrame, permitindo investigar a reocupação do habitat pelos crustáceos anfípodes da Familia Talitridae, após o impacto do óleo e das atividades de limpeza da praia.
As praias estudadas caracterizam-se por receber grande quantidade de macrodetritos provenientes do estuário e de manguezais adjacentes, que são empurrados pelas ondas e marés e depositados no alto da praia. Formam, então, barras orgânicas que constituem importante fonte de detrito para alimentação e abrigo de uma gama de organismos, mas especialmente dos anfípodes talitrídeos, habitantes comuns das praias e conhecidos como “pulgas-da-praia” por seu hábito saltador. Destacam-se estes por serem os primeiros colonizadores das faixas de macrodetritos, uma vez que se alimentam de material recém depositado. O efeito da contaminação das praias por óleo é severa nesses ambientes, podendo comprometer a fase de recrutamento das espécies, uma vez que toda a população, incluindo os jovens, vive nesse habitat.
Os resultados mostram que as praias afetadas voltam a ter a mesma composição de espécies de talitrídeos após 3 meses do impacto. As variações encontradas na abundância dos crustáceos e na quantidade de detrito das praias foram relacionadas à intensidade e duração das atividades de limpeza. Limpezas manuais durante 1 a 3 meses favoreceram o aumento dessa fauna móvel e contribuíram para a expansão local da espécie Platorchestia monodi, que dobrou sua ocorrência de três para as seis praias estudadas. Durante o procedimento de limpeza e retirada do sedimento contaminado os anfípodes migram ativamente e se concentram nos locais limpos. Como ocorre o aporte e deposição constante e maciça de detritos vegetais provenientes do estuário, os sedimentos tornam-se enriquecidos nutricionalmente de forma contínua e crescente, tornando-se disponíveis para uma nova ocupação.
As amostras de sedimento foram coletadas em março e agosto de 2004, antes do acidente e em 30 e 120 dias após o acidente em seis praias do estuário, por intermédio de um tubo amostrador com capacidade de 0,05mm, em triplicata, e em três cordões de macrodetrito em cada praia. Foi traçado o perfil das praia e determinadas as características granulométricas dos sedimentos e a salinidade. O impacto de limpeza foi classificado em 3 categorias de acordo com a severidade causada no substrato.
Embora a remoção constante de detritos, como efetuada em muitas praias turísticas, e a limpeza profunda e severa das praias contaminadas por petróleo sejam controversas e desaconselhadas, a limpeza manual e em em curta escala de tempo é aqui recomendada para os casos de derrame de óleo envolvendo praias estuarinas.
Contato Carlos A. Borzone e-mail: capborza@ufpr.br Universidade Federal do Paraná - Centro de Estudos do Mar (CEM) Av. Beira Mar s/n, 83255-000 Pontal do Paraná, PR, Brasil
Profa. Dra. Ana Maria Setubal Pires Vanin Editora-Chefe
Texto completo e fasciculos anteriores acesse: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_serial&pid=1679-8759&lng=pt&nrm=iso
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